segunda-feira, 28 de maio de 2018

O Crivo do Voto





No Brasil se utiliza um sistema de eleição onde o candidato a presidente que atingir a maioria absoluta de votos é eleito e assume o mandato para promover a prestação de serviços e prover a manutenção da ordem pública pelos quatro anos conseguintes a partir de primeiro de janeiro do ano seguinte até 31 de dezembro de quatro anos depois. 

Um candidato à presidência cria um projeto de governo, apresenta a população e se os eleitores acatarem aquele projeto como o que mais defende suas demandas e o votarem nele de forma absoluta ele é eleito, nesse caso se cria duas classes distintas: a dos que votaram naquele candidato, que ganharam a eleição e aceita aquele projeto como o melhor, essa classe geralmente representa 2/3 das pessoas (situação). A outra classe é a daqueles que votaram no outro candidato e que aceitaram o projeto derrotado como o melhor projeto e que são contra o projeto que será implantado, essa classe representa 1/3 das pessoas (oposição). 

O Brasil vive um momento que não pode ser considerado um hiato de sua história, já que a maioria dos nossos presidentes não tiveram seus projetos aceitos pela população, não passando assim pelo crivo do voto, a maioria gritante se tornou presidente por golpes de estado ou processos que levaram outros candidatos eleitos a terem seu mandato impedido. 

O único vice-presidente que teve seu projeto aprovado pelo crivo do voto foi João Goulart, porque naquele período em singular, o presidente e o vice não compunham chapa, eram eleitos de forma não relacionada, cada um exercendo seu próprio mandato sem relação com o outro.

Ou seja, a maioria dos presidentes brasileiros não tem seus projetos aprovados pelo voto popular, já que não são eleitos, sejam os vices que tomam posse passando por cima da cabeça de seus companheiros de chapa, sejam aqueles que entram por golpes dilacerantes de estado, é aí que mora a instabilidade. 

Quando um presidente não tem seu projeto eleito ele cria uma nova classe, a daqueles que nem concordam e nem discordam dele, que é a mais problemática. Quando um presidente tenta aplicar seu projeto de forma autoritária, sem coragem de tentá-lo, ou sem capacidade, de passar o mesmo pelo crivo do voto popular ele tem um espaço de instabilidade, que é uma parte da população que nem o odeia e nem o ama, que a qualquer momento pode virar corpo daqueles que o odeiam.

No exemplo pratico deve-se comparar o governo de Itamar Franco e o de Michel Temer, pois ambos entraram por processos de impeachment de seus companheiros de chapa, no caso de Michel Temer processo organizado por ele mesmo.

Itamar Franco teve seu projeto de governo, que não passou pelo crivo do voto, marcado pelo Plano Real que se propôs a reduzir anos de hiperinflação e tentar criar espaços de estabilidade na economia e consequentemente na política. A partir da produção dessa impressão de confiança ele conseguiu transformar o hiato de instabilidade, que é o grupo que nem gosta e nem desgosta, em quadro para o grupo que o apoiava naquele momento e saiu de forma muito tranquila de sua gestão.

Michel Temer não teve nenhuma marca positiva em seu governo, e também tem as pessoas que nem o odeiam e nem o amam, ele tem as pessoas que o apoiam de forma singular e irremediável que são aquelas que foram a favor do impeachment e também tem aquelas que o desaprovam de forma muito incisiva que são os contrários ao processo de impeachment de Dilma Rousseff. A diferença entre Michel Temer e Itamar é que o grupo que “nem o aprova e nem o desaprova” não tombou para a situação como no caso de Itamar, eles tombaram de forma muito densa para o lado daqueles que o desaprovam, a oposição.

Um governo que não tem seu projeto aprovado pelo voto, pois a questão básica é muito simples: economistas, cientistas de todas as áreas, gente que estuda e analisa a área pode até emitir pareceres muito bons sobre qualidade de projetos, mas a peneira que separa os projetos bons dos ruins é á do voto, então sempre deve ter como base de qualidade os votos, logo, quando um projeto não passa pelo crivo do voto ele tem muito mais chances de ser desaprovado do que um projeto ruim que passou pelas urnas.

É complicado entender isso, mas a questão é que a maioria das pessoas apoia os governantes que elas elegeram até o fim, e aqueles que se oposicionam a ele também o fazem até o fim, mas quando o sujeito não é eleito à chance de todas as massas populares se virarem contra ele é muito maior, já que ninguém tem relação ideológica-eleitoral com aquele sujeito.

Um bom exemplo é os caminhoneiros que hoje encabeçam o movimento contra Michel Temer: apoiaram a entrada de Michel Temer, porém como não tem ligação ideológica com ele, hoje são a representação dos movimentos que lutam pelo fim do “Mandato” do atual presidente. 

A democracia demanda eleições constantes e limpas, além do respeito ao resultado das mesmas, pois todas as vezes que passamos por governos que não foram eleitos, como o de Michel Temer e em casos mais profundos como o dos militares, as implicações desses mandatos foram devastadoras.

Ainda nos dias atuais são enfrentados problemas decorrentes pela ditadura, período marcado pela destruição das representações populares e que gerou aos brasileiros um sentimento de descrença em relação a classe política, o que era o estopim que os militares sempre se utilizavam para se manter no poder sem ter que atravessar o crivo do voto, sem ter necessidade de ter seu projeto aprovado por um pleito, a repressão na verdade era a política pública mais aplicada e desenvolvida naquele governo.

O governo Sarney se propôs a tentar algumas mudanças, realmente tinha a frente dessas mudanças sujeitos extremamente antinacionalistas e de pouca preocupação social e que tinham mais interesses pessoais no governo do que realmente uma missão com os famélicos da nação, mas o fato de Sarney não ter sido eleito, e ter assumido um mandato galgando sobre o sarcófago de Tancredo Neves aprofundava ainda mais a desconfiança do povo diante de suas medidas, promovendo assim um governo também desastroso.

Platão disserta que a democracia é o pior tipo de governo que existe, mas é o melhor que a humanidade já teve acesso, e essa é uma realidade que todos que são expostos as ciências sociais aplicadas muito claro, pois com todos os seus defeitos, a democracia transmite confiança quando ela é o motor principal de qualquer projeto de governo que busque ser um projeto novo de estado e de reestruturação popular.

Portanto, todo projeto deve ser aprovado pelo voto para ter estabilidade enquanto o mesmo estiver em vigor, pois sem apoio popular nenhuma ação de governo consegue virar ação de estado e prosperar promovendo o desenvolvimento do país ou qualquer espaço para o qual ele foi eleito. 



“Não se iluda comigo, leitor. Além de antropólogo, sou homem de fé e de partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um fundo patriotismo. Não procure, aqui, análises isentas. Este é um livro que quer ser participante, que aspira a influir sobre as pessoas, aspira a ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo” (Darcy Ribeiro, 2001, p. 17).







Por: Júnio Matheus da Silva Cruz

sexta-feira, 25 de maio de 2018

QUAIS SERÃO OS IMPACTOS DO “NOVO” ENSINO MÉDIO NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA?


A partir de 2019, as escolas públicas no Brasil passam a organizar sua estrutura educacional e pedagógica referente ao chamado de “novo” ensino médio. Porem algumas questões sobre o mesmo não são claramente detalhadas nos diversos espaços informativos sobre a construção do projeto, a proposta e seus possíveis impactos na educação brasileira.

Neste trajeto descritivo é importante entender que a proposta advém paralela a construção democrática realizada pelo Plano Nacional de Educação PNE e ao mesmo tempo organizado dentro da administração pública no período do golpe imposto ao país a medida provisória MP 746/16 e posterior a lei 13,415/17 alterando a Lei de Diretrizes de Base da Educação LDB apresentada para a sociedade em 1996, em especial com prefácio do então parlamentar e educador brasileiro Darcy Ribeiro.

É evidente que todo este arcabouço legal nos explicita reflexões que vão de desencontro com o que entendemos sobre a Democracia, mas a propaganda sobre o “novo” ensino médio já se desvincula da antiga LDB, como os valores democráticos e constituídos desde a sua base social até a gestão educacional. O ar avançado e tecnológico, a necessidade de trazer para a educação os paradigmas da modernidade aos estudantes são equivocados quanto a realidade brasileira.

Sobre a proposta por exemplo de trazer 40% dos conteúdos à Distância na modalidade EaD, ou mesmo para a Educação de Jovens e Adultos sendo possível 100% do conteúdo à distância não daria jamais de refletir sobre o uso da internet no país. Segundo os dados do IBGE sobre o PNAD que trata da amostra domiciliar em 2016, aproximadamente 40% da população brasileira não tem acesso à internet. De acordo as pesquisas do IBGE, os dois motivos mais apontados foram: não sabiam usar ou ter acesso em casa (37,8%) e não tinham interesse (37,6%), e abrangeram praticamente o mesmo percentual das 63,35 milhões de pessoas que não usavam a Internet no período. Entre as localidades, os municípios de pequeno porte demográfico e também as regiões mais pobres das grandes cidades.

A contradição está em especial no conteúdo, que pode ser o que é chamado na reforma como facultativo, como a filosofia, sociologia ou mesmo história, biologia e geografia. Estes são em sua grande parte disciplinas curriculares que estão ligadas aos trabalhos em grupo, diálogo em coletividade e mesmo a oportunidade de trazer ao estudante a interpretação entre o texto e a realidade.

O que teremos ao ensino médio, de acordo com o site do Ministério da Educação MEC é uma cobrança das atividades de Língua Portuguesa e Matemática, que de forma isolada não dão conta por si da formação humana.

É importante também ressaltar que o governo federal anuncia a possibilidade de aumento da educação em tempo integral, mas na leitura da lei que dispõe sobre o “novo” ensino médio o tempo integral está vinculado ao EaD e atividades complementares que em parte são voltadas ao mercado de trabalho (num país de 14 milhões de desempregados) ou mesmo na Escola (a mesma que pós PEC95 não receberá um aumento significativo de recursos públicos até 2036).

Uma outra grande questão sobre o novo ensino médio é a precarização do/a trabalhador/a da educação. O mesmo para a grande maioria das atividades ou disciplinas não necessariamente precisam estar habilitados, trazendo um perigoso olhar do senso comum e uma profissionalização da educação brasileira. A fragilidade e possibilidades formativas passam pela valorização das/os profissionais que estão ministrando as aulas. Contudo o olhar neoconservador e liberal do governo golpista de Michael Temer não se preocupa com esta qualidade.

O impacto na sociedade através do sucateamento da educação brasileira, em especial, será em uma sociedade cada vez mais consumista, intolerante e que acredita no sentido do mérito pelas conquistas que na prática são coletivas. Não se pode pensar uma politica pública que dialogue sobre a exceção e não a regra.

É momento de lutar e resistir, como ensina Paulo Freire: Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.

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Leonardo Koury Martins – Assistente Social, Professor e Militante da Frente Brasil Popular

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Governo Temer tenta mais uma vez convencer sobre o golpe na primeira infância e sucateia a assistência social


Aconteceu hoje (18) a visita do Ministério do Desenvolvimento Social MDS ao estado de Minas Gerais para dialogar com a população e conselheiras/os do Conselho Estadual de Assistência Social CEAS-MG sobre a adesão do programa Criança Feliz. 

De acordo o material apresentado pelos representantes do Ministério, a primeira infância faz do carinho e cuidado sendo que segundo “pesquisas” as crianças e mães pobres, assim como suas famílias podem estar sendo afetas no seu entendimento cognitivo e neurologia pela falta deste “carinho”. Neste sentido o Governo Federal reduziu o orçamento das políticas sociais e lançou da alternativa de criar novos programas como o Criança Feliz. 

Entre as falas os Conselhos de Psicologia, Serviço Social e mesmo o COGEMAS reiteram a posição de ser contrário a adesão ao programa. Desde a sua criação o que foi debatido em comum é a ausência de espaços de participação na elaboração de sua proposta e descumprimento das deliberações das conferências e espaços de pactuação. 

Culpabilizar as mães pela pobreza não pode ser uma diretriz de um programa social. A falta de carinho e cuidado não são causadoras da pobreza e sim a desigualdade social, que pós 2016 se amplia, trazendo milhões de desempregadas/os, retração dos investimentos no Serviço Público e no contraponto aumento de isenções tributárias e fiscais às grandes empresas privadas no país. 

Promover a infância e a juventude é garantir mais direitos, que só se faz com justiça, democracia e igualdade em condições.

sábado, 5 de maio de 2018

200 anos de MARX


Há exatos 200 anos, em uma família judia de classe média da Renânia, a sudoeste de uma Alemanha dividida, atrasada e despótica, nascia Karl Heinrich Marx. Poeta apaixonado quando jovem, filósofo por formação, revolucionário profissional, político e organizador, matemático amador, fumante compulsivo, suas ideias definiram em grandes linhas a história da humanidade ao longo do século 20 e até hoje. Marx não inventou nem descobriu a luta de classe, mas a explicou de uma maneira que ninguém jamais havia feito antes. 

Por detrás dos conflitos aparentemente acidentais entre patrões e empregados, escravos e senhores, servos e nobres, Marx viu profundas bases materiais, poderosas forças econômicas e sociais: a luta pelo controle sobre as riquezas extraídas da natureza e transformadas pelo trabalho humano. E o mais importante: deu a esses conflitos um sentido, um objetivo, formulou um programa, uma saída, um meio de superá-los. 

Marx também não inventou o socialismo, que já existia como corrente filosófica e movimento político muito antes dele. O que Marx fez foi dar ao socialismo bases científicas. Transformou um sonho romântico em um objetivo alcançável. Em meio aos diferentes conflitos das diferentes classes sociais, Marx identificou que a classe dos trabalhadores assalariados, por não possuir nenhuma propriedade e por ser encarregada de mover, com seu trabalho, a gigantesca roda do capital, concentrava em si todas as explorações e todas as opressões de todas as outras classes exploradas e oprimidas. 

E que por isso a sua libertação do jugo do capital acarretaria a libertação de toda a humanidade. Ao contrário do que se diz, Marx não era economista, mas sim um crítico da economia. Sentou-se durante 20 anos em um gabinete úmido e mal iluminado para provar ao mundo que a assim chamada “ciência econômica” não passava de ideologia. Que por detrás das fórmulas impessoais dos economistas, o que havia era trabalho humano, suor e sangue. Nessa busca, Marx desvendou o verdadeiro mecanismo da exploração capitalista: ao oferecer uma certa quantidade de dinheiro ao trabalhador em troca de uma certa quantidade de horas de trabalho, os capitalistas arrancavam dos trabalhadores uma quantidade de riquezas muito maior do que aquela que pagavam na forma de salário. Era um “valor a mais”, que Marx chamou de mais-valia ou mais-valor. 

Não havia nenhuma liberdade na relação capital-trabalho. A igualdade jurídica entre patrões e empregados escondia a desigualdade real entre despossuídos e possuidores, mascarava a obrigatoriedade dos trabalhadores se submeterem à exploração para não morrerem de fome. Marx não se contentou em explicar o mundo. Ele queria transformá-lo. Construiu partidos, uma associação internacional, organizou, ensinou, escreveu, agitou, conclamou. Atacou governos, políticos, papas e generais. Abriu mão de uma confortável cátedra em sua universidade natal. Pagou o preço. 

Foi exilado e perseguido. Morreu pobre, mas com sua honra intacta. Seus últimos dias foram particularmente difíceis. A morte da esposa amada com um câncer doloroso. Marx morreu deixando para trás uma obra impossível de ser medida, um conjunto grandioso de ideias tão poderosas quanto eternas. Marx morreu no dia 14 de março de 1883, mas – coisa estranha – sua morte foi anunciada milhões de vezes desde então! Sempre é a “morte definitiva”. 

E a cada vez os inimigos da liberdade e do progresso humano comemoram mais e soltam mais fogos. Há algo que não se entende sobre Marx: que suas ideias adquiriram vida própria, que o que ele revelou não pode mais ser escondido porque toda a humanidade caminha exatamente no sentido que ele disse caminhar: para disjuntiva entre a barbárie e o socialismo. 

O mundo mudou muito desde Marx. Mas não os pressupostos de sua teoria: a exploração do capital sobre o trabalho segue sendo a pedra fundamental sobre a qual se erguem todas as maravilhas e todas as desgraças da espécie humana. O socialismo segue vivo nas ideias de Marx e na luta da classe trabalhadora do século 21. Diz um ditado espanhol “los muertos que vos matáis gozan de buena salud”. Assim é Marx. 

Anunciem a sua morte! Toquem as trombetas! Não importa. Nascido há 200 anos, ele segue vivo, e goza de perfeita saúde. 

Por: Esquerda on-line

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Falando sobre classes de forma simples




Por: Leonardo Koury Martins


Quem realmente produz a riqueza? Não há dúvidas seja pelo acúmulo teórico ou pelas experiências práticas de dois séculos do modo de produção capitalista.


Quem produz a riqueza que vem das fábricas e do campo?

Os operários e operárias que em seus postos de trabalho atuam constantemente. Não é diferente as situações das lojas dos comércios em que as vendedoras e vendedores se desdobram
para vender o que está ali exposto. Das lanchonetes das periferias, no serviço público e até mesmo nas empresas de comunicação.

Quem vive de salário é trabalhador, é trabalhadora. Diretores de empresas, chefes de repartição não são patrões. São também funcionários, que vendem sua força de trabalho.

Em resumo, quem trabalha é a classe trabalhadora.

Mas não é ela quem fica com a riqueza. Por quê? A resposta está na diferença entre tudo que se gastou para produzir e o total do que se vendeu. O excedente é o que se chama mais-valia.

Essa diferença fica para os patrões, que engana o povo trabalhador oferecendo o salário como recompensa pelo trabalho produzido. O salário é apenas parte, e uma parte pequena, da riqueza produzida pelo trabalhador.

Precisamos ter a consciência que o dono de uma rede supermercados, o patrão (não estamos falando do gerente este é o trabalhador também) em nenhum momento esteve no caixa, no estoque ou mesmo cultivando legumes e hortaliças.

Enquanto escrevo este singelo texto, meus patrões (a burguesia) voam possivelmente para a Suíça com vistas de aproveitar o inverno europeu. Trabalharam muito? Férias? Não. Apenas contratam quem administra nossas vidas e suas riquezas que foram produzidas por nossas mãos.

A consciência é o momento em que paramos de competir pela vaga do trabalho do outro, de julgar os colegas, de compreender que todas as dores ali têm uma causa. Esta causa a cada dia se torna mais esquecida pela alienação. A alienação é o Alzheimer social que nos deixa a cada momento mais distante de romper com a possibilidade de termos um futuro livre.

Ah! A liberdade.

Para os ricos, nossa liberdade tem o preço de sua morte econômica, mas para nós, a nossa liberdade tem o preço de não mais ter preço. A vida e a liberdade não têm preço.

*Leonardo Koury Martins é professor, assistente social e militante na Frente Brasil Popular

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

As 12 vitórias de Maduro em 2017 destacadas por Ignacio Ramonet



O jornalista e analista político Ignacio Ramonet destacou nesta segunda-feira (1º), em um artigo opinativo, 12 triunfos obtidos em 2017 pela Revolução Bolivariana, liderada pelo presidente Nicolás Maduro. Ramonet assinala que o mandatário venezuelano confirmou assim que continua sendo, como dizem seus seguidores, “indestrutível”.


Leia aqui no Teoria Versus Prática os 12 triunfos descritos por Ramonet:


1 – Exercícios de Ação Integral Anti-imperialista Zamora 200, manobras cívico-militares organizadas pelo presidente Maduro em 14 de janeiro, com a finalidade de enfrentar o golpe parlamentar promovido pela direita. Na atividade participaram 578.230 homens e mulheres entre profissionais da Força Armada Nacional Bolivariana (Fanb), milicianos e movimentos sociais.

2 – Massiva participação do povo em 23 de janeiro ao chamado que Maduro fez a uma marcha para conduzir os restos mortais de Fabrício Ojeda ao Panteão Nacional, no mesmo dia em que se realizava uma manifestação da oposição.

“Pôde-se ver claramente como o chavismo popular domina as ruas, enquanto que a oposição exibia suas divisões e sua fraqueza extrema”, expressa Ramonet.

3 – Solidariedade diplomática da maioria dos Estados latino-americanos e caribenhos, frente à campanha de ingerência contra a Venezuela, assim como os constantes ataques desde a Organização de Estados Americanos (OEA) respaldados pelos setores mais extremistas da oposição e dirigentes políticos de direita na América Latina.

Depois desta constante ingerência por parte da OEA, a Venezuela decidiu em abril iniciar o processo de retirada dessa organização.

4 – Convocação, eleição massiva e instalação da Assembleia Nacional Constituinte (ANC). Diante do chamado que o mandatário fizera em 1º de maio do ano passado, mais de oito milhões de venezuelanos respaldaram a instalação da ANC, com a finalidade de garantir a paz e derrotar as ações violentas perpetradas pela oposição entre abril e julho, ações violentas que deixaram um saldo de mais de 120 mortos e mil feridos.

“No dia seguinte, como havia vaticinado o presidente, as ‘barricadas’ se dispersavam, a violência se desvanecia, a paz voltava a reinar (…) O presidente Maduro conseguiu desse modo derrotar as ‘barricadas’ e abortar a evidente intentona golpista”, enfatizou Ramonet em seu artigo.

5 – Vitória eleitoral de 15 de outubro nas eleições regionais, em que 18 dos 24 governos do país passavam às mãos da Revolução Bolivariana, e em 10 de dezembro se somou o de Zúlia.

6 – Triunfo nas eleições municipais de 10 de dezembro, com a obtenção de 308 prefeituras do total de 335 – 93% dos municípios do país -. A Revolução Bolivariana obteve a maior vitória que uma força política já recebeu na história da Venezuela, “enquanto que a contrarrevolução confirmava sua impopularidade com uma queda vertical de seus eleitores, perdendo mais de dois milhões e 100 mil votos”.

7 – Criação da comissão para consolidar o refinanciamento e a reestruturação da dívida externa, anunciada em 3 de novembro, com o propósito de superar as agressões financeiras. Depois do anúncio, o Governo Nacional se reuniu com um grupo de credores da dívida venezuelana procedentes dos Estados Unidos, Panamá, Reino Unido, Portugal, Colômbia, Chile, Argentina, Japão e Alemanha.

8 – Diante do bloqueio para adquirir medicamentos, o presidente concretizou, também em novembro, a chegada ao país de importantes carregamentos de insulina procedentes da Índia.

9 – A criação da moeda digital Petro, criptomoeda que estará lastreada pelas reservas energéticas e minerais da nação, contribuirá com o processo de recuperação e relançamento econômico em 2018, ao fortalecer o sistema financeiro, contrapor-se ao bloqueio à nação e aceder a novas formas de financiamento internacional.

10 – Avanços sociais através do Carnê da Pátria, que permitiu fortalecer toda a política de proteção ao povo das missões e grandes missões impulsionadas pela Revolução Bolivariana, com programas que abordam diretamente os setores mais vulneáveis do país.

11 – Grande ofensiva contra a corrupção no setor petroleiro.”Nada parecido havia ocorrido em cem anos da indústria petroleira venezuelana. Esta foi sem dúvida a vitória mais comentada do presidente Maduro nos finais de 2017″, diz Ramonet.

Desde agosto de 2017 foram feitas 69 prisões, que incluem 18 altos cargos dentro da Pdvsa e no Ministério do Petróleo. Entre eles destacam-se as ordens de apreensão contra Rafael Ramírez, ex-ministro do setor e ex-titular da Pdvsa durante 10 anos; de Eulogio del Pino e Nelson Martínez, também ex-presidentes da estatal.

12 – Fazer com que a oposição se sente à mesa de diálogo. “Desta vez no cenário neutro da República Dominicana, sobre a base do respeito e do reconhecimento mútuo (…) Semelhante avanço rumo à paz foi talvez a mais apreciada vitória do presidente”, ressalta Ramonet.

Desde 2013, o presidente Maduro fez 338 chamados ao diálogo e à paz. Somente em 2017 fez 269 convites à oposição venezuelana para encontrar uma solução aos problemas, pela via do diálogo permanente e do estabelecimento de um acordo mínimo de convivência, sendo estes 11 e 12 de janeiro uma nova jornada de diálogo para a paz.

domingo, 17 de dezembro de 2017

O povo decide, Diretas Já



Por Clara Maragna e Leonardo Koury

Primeiro a gente tira a Dilma, rasga a Constituição Federal, fortalece o Estado policial, e nos resta saber: Quem controla o judiciário?

Entender o processo político que o Brasil vem sofrendo, é uma tarefa árdua e emblemática para todos nós. Mas de certo, é notório que a surpresa tornou-se um elemento central desse arranjo golpista, que tem como pano de fundo a ação do Poder Judiciário.

Traições, malas, chips invisíveis, Família Neves, Lava Jato, Temer, retirada de direitos, capas de revistas, prisões decretadas, almoços, judiciário desequilibrado e a ampulheta do tempo correndo contra o povo brasileiro.

Em meio a tanta fumaça sentenciada, é importante perceber que os atores do golpe não possuem cadeira cativa no Congresso Nacional, e tão pouco se resumem aos aliados de Temer.

Se assim, o fosse, a rejeição de Temer não seria exorbitante, e não estaríamos aqui falando desse novo capítulo, que além da cassação do Presidente golpista trará também uma corrida de atores pela linha sucessória da Presidência da República.

Quem opera o golpe não deseja que ele acabe, mas que ele se estruture e naturalize de modo a dificultar qualquer reação do povo brasileiro, afinal de contas a história nos ensinou que toda expansão de regimes totalitários sempre esteve relacionada aos problemas econômicos e sociais de um Estado imerso em ações ilegais sob os olhos do judiciário.

A sensação de que ha um distúrbio social é inerente ao processo vivenciado por todas e todos nós, especialmente porque essa anomalia se inicia através de uma ação contra os nossos direitos garantidos num Diploma Legal violado.

Com a previsão da saída de Temer, o golpe toma novos contornos, a Constituição Federal começa a ser avocada através das eleições indiretas por setores golpistas, de modo a legitimar o processo realizado por Michel Temer.

PORQUE NÃO DEVEMOS ACEITAR AS ELEIÇÕES INDIRETAS?

Podemos começar a falar que não devemos aceitar eleições indiretas porque não queremos a continuidade dessa orquestra golpista. Além disso, esse desejo por eleições indiretas não passa pela polarização entre coxinhas e não coxinhas, ou pelos projetos de poder ideológicos de esquerda ou direita, mas por uma estruturação anti democrática que será corroborada por interesses privados.

Não é legítimo avocar normal legal de uma Constituição violada, posterior a retirada do Estado Democrático de Direito, para consolidar uma violação nacional.

Defender eleições indiretas é legitimar o golpe na medida em os atos anteriores à sucessão presidencial produzirão efeitos concretos. A estrutura de poder é determinada pelo conteúdo da sua ação, e de fato os interesses da maior rede de televisão se resumem em apropriar -se do processo mais do que a população que constrói esse país.

É preciso entender que a ordem de um Estado Democrático destina-se a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna e pluralista.

Exigir o cumprimento desses princípios que regem a Constituição Federal, é construir uma disputa justa, e a possibilidade da escolha de representatividade pelos cidadãos e cidadãs brasileiras.
Estamos diante de um capítulo que nos aparece sob a corda bamba à beira de um abismo, recheado de fatos que nos dá elementos suficientes para lutarmos pela Democracia brasileira. Não é apenas a conexão de uma nova fase da conjutura, mas uma etapa da tática que a elite brasileira avança no objetivo central que é a volta do liberalismo e o estado mínimo.

Talvez a pergunta inicial, sobre quem controla o judiciário, aqui, toma outra percepção, a de que é preciso estar nas ruas, em todos os tipos de ações diretas, para tentarmos nesse último respiro, restabelecer um mínimo de razão com as eleições diretas. Estas não podem ser entendidas como apenas a volta de um governante eleito por voto popular, mas a concretude de que todo poder emana do povo, afinal está no parágrafo único do primeiro artigo da Carta de 88.

É preciso estar atentos, fortes, e nas ruas, afinal o poder emana do povo, o povo decide, Diretas Já!


Por Clara Maragna, advogada popular e militante da Frente Povo Sem Medo e Leonardo Koury, professor e assistente social militante da Frente Brasil Popular

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Frei Betto: dez conselhos para os militantes de esquerda



1. Mantenha viva a indignação. 
Verifique periodicamente se você é mesmo de esquerda. Adote o critério de Norberto Bobbio: a direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda a encara como uma aberração a ser erradicada. 

Cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus social-democrata, cujos principais sintomas são usar métodos de direita para obter conquistas de esquerda e, em caso de conflito, desagradar aos pequenos para não ficar mal com os grandes. 

2. A cabeça pensa onde os pés pisam. 
Não dá para ser de esquerda sem "sujar" os sapatos lá onde o povo vive, luta, sofre, alegra-se e celebra suas crenças e vitórias. Teoria sem prática é fazer o jogo da direita. 

3. Não se envergonhe de acreditar no socialismo. 
O escândalo da Inquisição não faz os cristãos abandonarem os valores e as propostas do Evangelho. Do mesmo modo, o fracasso do socialismo no Leste europeu não deve induzi-lo a descartar o socialismo do horizonte da história humana. 

O capitalismo, vigente há 200 anos, fracassou para a maioria da população mundial. Hoje, somos 6 bilhões de habitantes. Segundo o Banco Mundial, 2,8 bilhões sobrevivem com menos de US$ 2 por dia. E 1,2 bilhão, com menos de US$ 1 por dia. A globalização da miséria só não é maior graças ao socialismo chinês que, malgrado seus erros, assegura alimentação, saúde e educação a 1,2 bilhão de pessoas. 

4. Seja crítico sem perder a autocrítica.
Muitos militantes de esquerda mudam de lado quando começam a catar piolho em cabeça de alfinete. Preteridos do poder, tornam-se amargos e acusam os seus companheiros (as) de erros e vacilações. Como diz Jesus, vêem o cisco do olho do outro, mas não o camelo no próprio olho. Nem se engajam para melhorar as coisas. Ficam como meros espectadores e juízes e, aos poucos, são cooptados pelo sistema.

Autocrítica não é só admitir os próprios erros. É admitir ser criticado pelos (as) companheiros (as). 

5. Saiba a diferença entre militante e "militonto". 
"Militonto" é aquele que se gaba de estar em tudo, participar de todos os eventos e movimentos, atuar em todas as frentes. Sua linguagem é repleta de chavões e os efeitos de sua ação são superficiais. 

O militante aprofunda seus vínculos com o povo, estuda, reflete, medita; qualifica-se numa determinada forma e área de atuação ou atividade, valoriza os vínculos orgânicos e os projetos comunitários. 

6. Seja rigoroso na ética da militância.
A esquerda age por princípios. A direita, por interesses. Um militante de esquerda pode perder tudo: a liberdade, o emprego, a vida. Menos a moral. Ao desmoralizar-se, desmoraliza a causa que defende e encarna. Presta um inestimável serviço à direita. 

Há pelegos disfarçados de militante de esquerda. É o sujeito que se engaja visando, em primeiro lugar, sua ascensão ao poder. Em nome de uma causa coletiva, busca primeiro seu interesse pessoal. 

O verdadeiro militante, como Jesus, Gandhi, Che Guevara, é um servidor, disposto a dar a própria vida para que outros tenham vida. Não se sente humilhado por não estar no poder, ou orgulhoso ao estar. Ele não se confunde com a função que ocupa. 

7. Alimente-se na tradição da esquerda.
É preciso oração para cultivar a fé, carinho para nutrir o amor do casal, "voltar às fontes" para manter acesa a mística da militância. Conheça a história da esquerda, leia (auto) biografias, como o "Diário do Che na Bolívia", e romances como "A Mãe", de Gorki, ou "As Vinhas de Ira", de Steinbeck. 

8. Prefira o risco de errar com os pobres a ter a pretensão de acertar sem eles. 
Conviver com os pobres não é fácil. Primeiro, há a tendência de idealizá-los. Depois, descobre-se que entre eles há os mesmos vícios encontrados nas demais classes sociais. Eles não são melhores nem piores que os demais seres humanos. A diferença é que são pobres, ou seja, pessoas privadas injusta e involuntariamente dos bens essenciais à vida digna. Por isso, estamos ao lado deles. Por uma questão de justiça. 

Um militante de esquerda jamais negocia os direitos dos pobres e sabe aprender com eles. 

9. Defenda sempre o oprimido, ainda que, aparentemente, ele não tenha razão.
São tantos os sofrimentos dos pobres do mundo que não se pode esperar deles atitudes que nem sempre aparecem na vida daqueles que tiveram uma educação refinada.

Em todos os setores da sociedade há corruptos e bandidos. A diferença é que, na elite, a corrupção se faz com a proteção da lei e os bandidos são defendidos por mecanismos econômicos sofisticados, que permitem que um especulador leve uma nação inteira à penúria. 

A vida é o dom maior de Deus. A existência da pobreza clama aos céus. Não espere jamais ser compreendido por quem favorece a opressão dos pobres. 

10. Faça da oração um antídoto contra a alienação.
Orar é deixar-se questionar pelo Espírito de Deus. Muitas vezes, deixamos de rezar para não ouvir o apelo divino que exige a nossa conversão, isto é, a mudança de rumo na vida. Falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cômoda posição de juízes de quem luta.

Orar é permitir que Deus subverta a nossa existência, ensinando-nos a amar, assim como Jesus amava, libertadoramente. 

Frei Betto é escritor, autor do romance "Entre todos los hombres" (Editorial Caminos, La Habana), entre outros livros.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Educação é poder



Crônica original do Brasil de Fato e publicada no Jornal Brasil de Fato MG


Um país que esquece no presente a sua história não tem em seu horizonte o futuro. A educação deve servir para libertar e não para conservar as coisas como estão.

Nesse sentido é uma injustiça o que querem fazer com Paulo Freire. Não se trata de tirar um título ou uma honraria, mas de não reconhecer este nordestino lindo e amoroso que colocou a educação como prioridade e criticidade não apenas para a sua vida, mas para todo o país e o mundo.  

Paulo Freire foi aquele que tinha certeza que os adultos analfabetos, as crianças, as comunidades urbanas e rurais devem conhecer seus direitos e a educação é um instrumento de transformação não da articulação entre as palavras, mas da mudança da vida do povo oprimido. Aquela educação que não liberta também tem a intenção de manter os pobres mais pobres. Não há escola sem política, sem criticidade, sem partido.

É preciso uma educação para libertar e não para manter a ordem instituída. 

Se tivéssemos um real entendimento e oportunidade sobre a sua contribuição enquanto educador, não deixaríamos estes golpistas, representantes do que é de mais perverso na sociedade burguesa nos tirar até mesmo a democracia. 

Não vamos deixar que tirem nossa memória. Apoiar Paulo Freire é fortalecer o entendimento de que aprendemos no convívio entre nós e na relação com o mundo. Não há hierarquia nos saberes, há culturas diferentes e formas de ver o mundo. É preciso que essas diferentes formas contribuam com o sonho e a luta pela liberdade. 

*Leonardo Koury é do Conselho Regional de Serviço Social CRESS-MG, professor e integrante da Frente Brasil Popular

“Acordei com um sonho e com o compromisso de torná-lo realidade"
Leonardo Koury Martins

"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar"
Saramago

"Teoria sem prática é blablabla, prática sem teoria é ativismo"
Paulo Freire

"Enquanto os homens não conseguirem lavar sozinhos suas privadas, não poderemos dizer que vivemos em um mundo de iguais"
M.Gandhi

"Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres"
Rosa Luxemburgo